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Sandra Caselato

A catástrofe de Fukushima e o Grande Terremoto do Leste do Japão

ECOA

10/03/2020 04h00

Tóquio, 11 de março de 2011.

O chão tremeu como já havia tremido tantas outras vezes. Um leve tremor, perceptível apenas porque as coisas balançavam um pouquinho, como ocorria quase toda semana.

Morava no Japão há 1 ano e meio e já tinha me acostumado com esses pequenos tremores. Mas agora a vibração não parava, como normalmente acontecia.

Os livros começaram a 'caminhar' na estante até cair, coisas na cozinha chacoalhando. Olhamos um para o outro, eu e meu marido: "acho que desta vez sim, precisamos sair da casa".

Sensação de urgência e ao mesmo tempo uma inesperada tranquilidade, um tipo de amortecimento. Saímos do apartamento antigo de dois andares.

Lá fora, surpresa: bicicletas estacionadas tombavam, o poste balançava como se fosse de borracha. Surreal.

Várias pessoas do lado de fora, uma moça chorando. Nos aproximamos de um grupo e uma senhora japonesa de uns 60 anos, visivelmente abalada, disse que nunca tinha vivido um tremor como esse.

Difícil ficar em pé… muita gente sentada no chão, que não parava de tremer.

E uma calma inexplicada em mim.

Alto falantes instruindo o que devíamos fazer: ir até o 'bakayama' – um gramado aberto dentro da universidade, área de segurança em caso de terremoto.

Voltamos para o apartamento para buscar algumas coisas. Uma parede trincada, uma vidraça quebrada. Coisas caídas no chão. Pegamos rapidamente casacos, mochila com documentos, água e algo para comer.
Sensação de irrealidade, como se estivesse num sonho ou assistindo um filme.

Uma certa suspensão de sentimentos e sensações, mas ao mesmo tempo uma consciência mais aguçada do meu próprio corpo, que estava alerta, pronto para agir, qualquer que fosse a necessidade.

Andamos por uma trilha em meio às árvores, em direção ao gramado. O chão parecia um tapete sendo chacoalhado – ondas subindo e descendo, que davam certa tontura. Difícil manter o equilíbrio ao caminhar. Medo de andar entre as árvores, que pareciam poder tombar a qualquer momento.
Chegando ao 'bakayama' nos sentamos no chão, como tantas outras pessoas, que formavam pequenos grupos. Algumas pessoas choravam desesperadas.

De repente minha calma desapareceu e uma certa ansiedade e aflição tomaram conta de mim. Imagens me vinham à mente, como aquelas de filmes americanos de catástrofes: o chão se abrindo numa cratera, escuridão no céu, fogo e chuva ao mesmo tempo, pessoas sendo sugadas pelo buraco que se abria na terra, desespero, morte, frio… minha mente podia seguir por este caminho angustiante e aterrador com imagens do fim do mundo – ou não…

Respirei fundo e decidi conscientemente ir por outro caminho… Posso escolher para direcionar minha mente.

Me conectei com a terra, com meu corpo sentado sobre a grama, minha respiração, o ar frio entrando pelas minhas narinas. Senti a terra se movendo sob mim, como se respirasse junto comigo, para cima e para baixo, para cima e para baixo, pra cima e para baixo. Minhas mãos abertas, conectadas com o chão, enraizando… enraizando…

Uma imagem me veio à mente: estava sentada na barriga de um enorme gigante, que dorme respirando tranquilo… Neste momento me senti tranquila também.

Esta imagem e a sensação de uma calma quase inabalável me acompanharam nos dias que se seguiram, e pude realizar inúmeros atendimentos psicológicos emergenciais via telefone a pessoas que precisavam de apoio.

Sempre que meus pensamentos mostravam qualquer sinal de querer voltar àquelas imagens catastróficas, logo me conectava novamente com a respiração tranquila do enorme gigante adormecido, e isso me acalmava.

O Grande Terremoto do Leste do Japão em 11 de março de 2011 matou mais de 16 mil pessoas e causou o acidente nuclear da usina de Fukushima, com vazamento de material radioativo para o mar, a terra e o ar, com graves consequências ecológicas de magnitude ainda desconhecida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre a autora

Psicóloga, com graduação em artes plásticas e especialização em didática, Sandra Caselato é uma exploradora dos processos psicológicos e das relações humanas, com especial interesse na transformação de conflitos e no fortalecimento da cultura de paz. Atua com desenvolvimento humano há mais de 20 anos, aprofundando-se em práticas que favorecem o diálogo, a transformação pessoal e social por meio da conexão humana.

Sobre o blog

Como você se relaciona consigo mesma(o), com as pessoas a sua volta e com o mundo? Como você lida com os conflitos que se apresentam em sua vida e ao seu redor? Sandra Caselato traz reflexões sobre como viver uma vida mais conectada com os próprios valores, enxergar com empatia além das aparências e construir espaços seguros para conversas necessárias, criando o mundo em que queremos viver.