Sandra Caselato http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br Sandra Caselato, formada em artes plásticas e psicologia, é uma exploradora dos processos psicológicos e das relações humanas. Tue, 14 Jan 2020 07:00:15 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=4.7.2 Ouvir: uma arte http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/2020/01/14/ouvir-uma-arte/ http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/2020/01/14/ouvir-uma-arte/#respond Tue, 14 Jan 2020 07:00:15 +0000 http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/?p=101

Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana seja apenas outra alma humana.” (Carl G. Jung)

Ao final de um primeiro atendimento de psicoterapia:

– Como você está se sentindo agora?

– Estou bem melhor. Estou mais tranquila. Gostei muito porque você conversou comigo de verdade, não ficou só em silêncio me ouvindo. Você me perguntou quando não estava claro o que eu estava dizendo e aí as coisas ficaram mais claras para mim também. A única outra vez que eu tinha ido a um psicólogo foi muito diferente e foi horrível. Eu cheguei lá e falei, falei, falei e, enquanto eu falava, eu percebia que o que eu estava dizendo não fazia sentido. Eu estava perdida na minha própria confusão e acho que o psicólogo também não estava entendendo nada do que eu falava, mas ele ficava só me olhando. Então eu continuei falando, falando, não conseguia parar de falar e parecia que tudo ia ficando cada vez mais confuso. Quando eu finalmente consegui parar de falar, angustiada, na expectativa de ouvir o que ele tinha a dizer, ele falou: “Seu tempo acabou”. Fui embora chorando e nunca mais voltei. Ainda bem que decidi tentar de novo agora porque foi totalmente diferente. Estou muito aliviada. Não estou mais me sentindo sozinha.

Talvez uma das coisas mais importantes que aprendi atendendo como psicóloga está relacionada à pesquisa sobre a “Relação de Ajuda”, realizada por Carl Rogers, psicólogo americano precursor da Psicologia Humanista e criador da Abordagem Centrada na Pessoa.

Nesta pesquisa, Rogers buscou identificar que ações, posturas e atitudes resultam de fato em ajuda, onde as pessoas se sentem apoiadas ou têm a experiência de que a interação as ajuda lidar com seus desafios, qualquer que seja a natureza da relação: entre psicólogo e cliente, médico e paciente, professor e aluno, pais e filhos, colegas de trabalho, entre amigos etc. Rogers chegou a três atitudes facilitadoras para uma “Relação de Ajuda”: empatia, congruência e aceitação positiva incondicional.

Parece um paradoxo, mas a conclusão que ele chegou – e que eu tenho experimentado com sucesso – é que o que mais “ajuda” uma pessoa não é “tentar ajudá-la”, mas apenas estar presente, junto com ela num movimento de empatia e aceitação incondicional em relação ao que quer que esteja acontecendo internamente com a pessoa, acompanhando o que está “vivo” para ela a cada momento, sem tentar resolver, modificar, transformar, sugerir ou consertar.

Ao mesmo tempo, é importante que eu seja congruente comigo mesma, sincera e autêntica sobre o que ocorre internamente em mim em relação à pessoa, expressando isso para ela quando relevante. Ser “eu mesma” ajuda a estabelecer uma conexão humana verdadeira e honesta, que vai além de rótulos ou títulos, como terapeuta, pai, mãe, professor, aluno, chefe
etc.

Quando eu estou realmente presente com a pessoa, aceitando-a completamente, dou espaço para que as transformações possam acontecer naturalmente, no ritmo dela, sem tentar dirigir ou forçar transformações. É como observar o desabrochar de uma flor. Eu posso estar ali presente, admirando e oferecendo condições que favorecem seu desabrochar (água, luz etc.), mas se eu tento ajudar a flor a se abrir mexendo em suas pétalas, acabo interferindo no processo e posso até destrui-la.

Esta qualidade de presença e atitude a que Rogers se refere, significa um respeito e uma confiança profunda na capacidade da pessoa encontrar seu próprio caminho, sabendo que a melhor maneira de apoiá-la é estar junto com ela, sendo eu mesma com honestidade e acompanhando o que está vivo para ela a cada momento. É uma confiança plena no que Rogers chamou de “Tendência à auto atualização” – a tendência inata de todo ser vivo a se mover em direção a encontrar formas de suprir suas necessidades.

Da mesma forma que uma planta continuamente se volta para a luz ou estende suas raízes em busca de água, nós, seres humanos, também somos movidos a buscar atender nossas necessidades, sejam de sobrevivência, bem-estar, segurança, amor, confiança, aceitação, participação, pertencimento, comunidade, dignidade, respeito, entre tantas outras.

Essa nossa capacidade natural de buscar maneiras de atender nossas próprias necessidades é fortalecida quando estamos em ambientes e em relações que nos oferecem essas condições facilitadoras: aceitação incondicional, empatia e congruência. De acordo com Rogers, esses são os elementos necessários para desabrochar este nosso mecanismo inato de auto atualização.

É o que tento estabelecer em todas as minhas relações. Nem sempre é fácil, principalmente com as pessoas mais próximas, mas acredito que foi o que começou a acontecer neste primeiro atendimento que citei no início do texto. Ao estar presente com essas qualidades facilitadoras, é como se eu estivesse favorecendo as condições necessárias para este desabrochar da pessoa, que continuou nas sessões seguintes.

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Um caminho de harmonização com a vida: Aikido e CNV http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/2020/01/07/um-caminho-de-harmonizacao-com-a-vida-aikido-e-comunicacao-nao-violenta/ http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/2020/01/07/um-caminho-de-harmonizacao-com-a-vida-aikido-e-comunicacao-nao-violenta/#respond Tue, 07 Jan 2020 07:00:43 +0000 http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/?p=91 Na adolescência minha vida perdeu a cor. Apenas tons opacos de cinza. Tudo parecia sem graça, me faltava energia, entusiasmo e o desânimo aumentava cada vez mais. Não havia nada que me dava alegria, me sentia sozinha e me questionava sobre o sentido da vida. Pensava que gostaria de desaparecer, que preferia não estar nessa vida. Não pensava em me matar, mas pensava em não estar viva. Apesar dessa sensação depressiva desesperadora, me arrastava pelos longos dias, fazendo tudo que “tinha que fazer”, mesmo sem nada me interessar. 

Um dia acompanhei uma conhecida numa aula de aikido. Chegamos no final de um treino e havia três pessoas fazendo um “jiwasa” (treino livre). Elas se moviam rápido e energicamente, como uma engrenagem harmoniosa que improvisa uma dança cósmica, forte e conectada. Fiquei maravilhada com a conexão viva e quase “mágica” que presenciava. Imediatamente decidi que queria também viver aquilo. 

Demorou uns 6 meses até eu conseguir me desvencilhar da areia movediça em que estava mergulhada para chegar na primeira aula. Desde então, me apeguei aos treinos como a um barco salva-vidas que me trouxe para a superfície e impediu que me afogasse. O aikido me salvou.

De uma pessoa tímida que andava pelo mundo tentando ser invisível, interagindo o mínimo possível com as pessoas a minha volta, passei a estar mais firme e presente em meu próprio corpo e em minha própria vida. 

Vejo o aikido como uma arte de interação, que nos ensina a nos relacionarmos com a vida, com nós mesmos e com os outros, lidando melhor com tudo à nossa volta. Uma das traduções possíveis da palavra “aikido” é caminho de harmonização com a vida ou harmonização com a energia vital e universal que está presente em nós mesmos e em todas as coisas.  

Apesar de ser considerado uma arte marcial, o aikido é também conhecido como a “arte da paz”. Sua proposta é resolver conflitos, transformar uma situação de ataque em que uma pessoa necessariamente ganha e outra perde (ou onde as duas saem perdendo), numa situação ganha/ganha em que o ataque é dissolvido e a integridade de todos é preservada.

Pratiquei e dei aulas por muitos anos, explorando as relações da prática física e da filosofia do aikido com aspectos da vida diária e dos nossos relacionamentos com nós mesmos, as outras pessoas, as situações da vida e do mundo.

Vi muitas pessoas muito tímidas, como eu, começando a praticar e se tornando mais assertivas e confiantes, mudando inclusive a postura corporal. Da mesma forma vi pessoas mais expansivas, explosivas e agitadas, se tornando mais calmas, centradas e tranquilas. Em todos os casos, a prática constante trazia mais equilíbrio e paz para as pessoas, além de um senso de comunidade e pertencimento decorrentes do convívio em grupo explorando como lidar com conflitos. 

O aikido foi o início do meu interesse na forma como as pessoas lidam com elas mesmas, com a vida, com as pessoas a sua volta e com conflitos em geral. Hoje não pratico nem dou mais aulas, mas dedico meu tempo a apoiar pessoas e grupos em processos de autoconhecimento e transformação de conflitos nos mais diversos ambientes e contextos, principalmente com Comunicação Não-Violenta (CNV), uma abordagem chamada por alguns de “aikido verbal”. 

Para saber mais, acesse: www.sinergiacomunicativa.com.br

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Rever o ano que vai, sonhar o ano que vem http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/2019/12/31/rever-o-ano-que-vai-sonhar-o-ano-que-vem/ http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/2019/12/31/rever-o-ano-que-vai-sonhar-o-ano-que-vem/#respond Tue, 31 Dec 2019 07:00:02 +0000 http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/?p=88 Virada do ano. Momento de renovação, de rever o que passou e sonhar o ano que chega. Fazer planos, promessas, compromissos com nós mesmos. Independente se vamos cumpri-los ou não, é um momento de esperança para muita gente.

Na verdade, podemos rever nossa vida e planejá-la a qualquer momento. Mas a força do simbolismo da virada do ano e a celebração coletiva focada na renovação, de alguma forma dá mais energia a essa esperança de mudança e transformação para uma vida melhor, um mundo melhor.

No mundo tudo é cíclico, as estações do ano, as épocas de chuva e de seca, os ciclos femininos, o nascimento, o crescimento, a maturidade, a velhice e a morte acontecem com todos e tudo que está vivo. Todos os dias milhares de células nascem e morrem em nosso organismo. A renovação é constante.

Mas já que coletivamente estamos neste momento simbólico convencionado mundialmente como fechamento de um ciclo e início de uma nova etapa, que é a virada do ano, podemos aproveitar a oportunidade!

Muita gente aproveita para organizar a casa, jogar fora o que não serve mais, reciclar, limpar e abrir espaço para o novo, para coisas que façam mais sentido e tragam mais alegria.

Podemos aproveitar este momento também como um rito de passagem para rever o ano que se foi, celebrar as coisas boas, enlutar as coisas que não foram como queríamos e planejar o próximo ciclo.

É um ritual que pode nos trazer mais consciência sobre nós mesmos e um senso de maior controle e capacidade de ação em relação a nossa própria vida.

Este ano propus uma atividade aos participantes do “Laboratório de Empatia Online” que conduzo. Convido você a fazer também, se quiser, esse exercício de revisar o seu ano e planejar o próximo!

A proposta é a seguinte: desenhe uma linha do tempo e registre os momentos e acontecimentos mais importantes e significativos da sua vida no ano de 2019. Em seguida escreva abaixo de cada fato as necessidades ou valores que foram ou não atendidos naquela situação. Depois grife ou circule as necessidades que se repetem mais de uma vez. Assim você poderá perceber com clareza quais valores ou necessidades foram importantes para você neste ano. A partir daí você pode planejar melhor ações concretas para 2020.

Neste link você encontra uma lista de valores ou necessidades humanas universais que pode servir de apoio, caso queira experimentar fazer o exercício.

É uma atividade de celebrações e lutos, de reconhecimento e conscientização, de conexão profunda com nós mesmos e mais clareza sobre os valores que são importantes para cada um de nós e que nos preenchem, nos trazem motivação e fazem nossas vidas mais plenas.

Fazendo este exercício, mesmo nos momentos tristes e difíceis, ao identificar quais foram os valores e necessidades não atendidos, passamos a ter mais consciência dessas coisas que são tão importantes e valiosas a nós. Então podemos, por um lado, viver mais plenamente o luto ou a tristeza aos quais talvez não tenhamos ainda dado o espaço necessário para acolher, transformar e deixar ir. E por outro lado, tendo essa consciência do que é precioso para nossa vida, podemos planejar como queremos cuidar melhor dessas necessidades no próximo ano.

Por exemplo, na minha linha do tempo de 2019 eu registrei várias viagens que realizei a trabalho. As principais necessidades ou valores atendidos nessas viagens foram: contribuição, conhecimento, novas amizades, conexão, sentido, propósito. A principal necessidade não atendida foi descanso.

Além de celebrar os vários valores que foram contemplados, me dei conta que minha necessidade de descanso não foi muito bem atendida no decorrer do ano, resultando em acúmulo de estresse e exaustão. Ao perceber isso fico triste, pois gostaria de ter cuidado melhor de mim mesma. Ao mesmo tempo, com esta clareza, estou agora motivada a planejar momentos e períodos de descanso em 2020 para cuidar melhor da minha saúde e bem-estar!

Planejando 2020

Agora faça um planejamento para 2020. Escreva as necessidades que foram supridas em 2019 e que você gostaria de continuar atendendo no ano que começa. Escreva também as que não foram atendidas no ano que se encerra, mas que você gostaria de ver supridas em 2020. Em seguida, procure elaborar estratégias para atendê-las e as escreva ao lado das necessidades. Escreva ações concretas possíveis de serem realizadas, especificando ao máximo os detalhes e definindo datas para cada realização.

Após fazer o exercício, nos conte aqui abaixo seus aprendizados!

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Fim de ano, família e política: é possível conversar com quem discordamos? http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/2019/12/24/fim-de-ano-familia-e-politica-e-possivel-conversar-com-quem-discordamos/ http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/2019/12/24/fim-de-ano-familia-e-politica-e-possivel-conversar-com-quem-discordamos/#respond Tue, 24 Dec 2019 07:00:04 +0000 http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/?p=84 Fui convidada a falar para o podcast NOVO NORMAL, um projeto maravilhoso do Agora É Que São Elas em parceria com o Spotify Brasil, que foi ao ar ontem, dia 23 de dezembro. A entrevista foi sobre os desafios que muitos de nós enfrentaremos na noite de Natal e nas festividades de fim de ano com nossas próprias famílias. Então decidi escrever aqui também um pouco mais sobre o tema, para quem sabe contribuir com relações familiares mais conectadas e harmoniosas neste final de 2019.

Desde antes das eleições presidenciais no ano passado muitas pessoas romperam relações com parentes ou passaram a evitá-los. Agora chegou a época do ano em que novamente surge o desafio da família estar reunida sem que os ânimos se exaltem e as festas sejam arruinadas por discussões políticas. Muitas famílias estão inclusive combinando de proibir o tema. Grande desafio.

Mesmo com o cansaço de discutir o assunto nas redes sociais, presencialmente surge muitas vezes a tentação de “dar aquela alfinetada” na pessoa de opinião contrária ou o desafio de não se incomodar com a “cutucada” indireta ou mesmo direta de alguém.

Cada um tem suas certezas e quer defender seu ponto de vista como o único sensato e correto. O foco tende a ficar todo naquilo que divergimos e não conseguimos mais enxergar as milhares de outras coisas que nos conectam. As diferenças ficam ampliadas, como se não houvesse mais nada que nos unisse. E de repente aquela tia querida se torna para mim um monstro horroroso.

Praticando Aikido (a Arte da Paz) e Comunicação Não-Violenta (CNV) venho há muitos anos aprendendo a lidar com esses “monstros”. Tenho aprendido a não me apegar tanto aos “ataques”, a sair da frente e desviar quando vem em minha direção algo que pode me machucar, seja física ou emocionalmente.

Cuidando de mim primeiro, garantindo minha própria integridade e equilíbrio, posso encontrar disposição interna para tentar olhar pelos olhos da outra pessoa e buscar entender o que está por trás das suas ações ou palavras.

É claro que às vezes autocuidado vai significar evitar conversas ou mesmo deixar de ir aos encontros familiares. Então a primeira coisa é a escolha, decidir se quero experimentar fazer algo diferente. Se consigo encontrar internamente motivação para me reconectar verdadeiramente com pessoas que são queridas para mim, além da superfície, dos estereótipos e dos ressentimentos, talvez seja o momento para experimentar algo novo.

É o que eu chamo de um processo de humanização radical, uma tentativa de encontrar por trás daquilo que eu acho absurdo e inconcebível, valores com os quais posso me conectar. Um movimento audacioso e tenaz de não considerar apenas o aspecto superficial e visível do que o outro faz ou diz, mas tentar encontrar a humanidade por trás. Por mais horríveis que eu considere as palavras ditas, busco me conectar com os possíveis sentimentos e motivações da pessoa. Será que lá no fundo ela tem muito medo e anseia por segurança? Qual será sua compreensão sobre o mundo? O que na verdade está levando a pessoa a pensar como pensa?

Esse exercício de curiosidade genuína e respeitosa é parte do processo de transformar o “inimigo” em “amigo”, o “monstro” em “ser humano”. Esta habilidade está conectada aos movimentos de não-violência propostos por Gandhi, Martin Luther King Jr. e Mandela, que estão na origem da Comunicação Não-Violenta e ligados aos fundamentos do Aikido.

Fazer esta manobra interna não significa concordar, passar a mão na cabeça nem me submeter ou aceitar o que considero inconcebível. É um movimento de empatia, de tentar me colocar no lugar do outro e entender profundamente qual a essência de onde a pessoa parte para chegar ao ponto de pensar o que pensa. É descobrir essa essência da qual partilhamos, os valores que temos em comum, que vão além das nossas divergências.

Empatia não significa estar de acordo. Posso compreender profundamente as motivações, valores e necessidades humanas universais por trás do que foi dito e ao mesmo tempo discordar completamente do conteúdo e da forma de dizer.

Gandhi falava sobre separar a pessoa de seus atos. Podemos nos conectar com a pessoa, com sua humanidade e, ao mesmo tempo, discordar de seus atos. Enxergar os adversários não como “inimigos” mas como seres humanos que também estão buscando ser felizes. Ao nos colocarmos no lugar do outro, percebemos que todas as pessoas estão apenas defendendo sua felicidade da melhor maneira que podem ou sabem.

O interessante é que quando me disponho a este movimento corajoso e determinado de buscar compreender de verdade as motivações mais profundas, os valores mais preciosos por trás do que a pessoa está falando ou fazendo (e que muitas vezes a própria pessoa não tem consciência deles), algo quase mágico acontece.

A pessoa “baixa a guarda” pois se sente compreendida em sua humanidade, e uma conexão entre nós se estabelece. A sensação de oposição se dissipa e a partir dessa conexão verdadeira um espaço se abre para que algo novo aconteça. Um lugar interno de escuta se amplia, e novas perspectivas e compreensões são possíveis.

Quando a pessoa se sente profundamente escutada, normalmente ela se abre para me ouvir com curiosidade também, e então conseguimos criar um espaço de integração onde cabe tudo o que importa para nós dois. Muitas vezes, somente a partir desta compreensão mútua é que coisas novas que antes não tínhamos como imaginar podem surgir.

Não é mágica, mas às vezes parece mágica. E apesar de simples, não é tão fácil, pois requer disposição e dedicação para exercitar algo que geralmente não estamos muito acostumados a fazer: ir além dos julgamentos e construir uma conexão verdadeira a partir da escuta empática e da expressão autêntica, para que as discordâncias possam ser verdadeiramente escutadas e mudanças reais possam acontecer.

Por isso valorizo muito os espaços de prática: workshops, cursos, oficinas e grupos de Comunicação Não-Violenta (CNV), onde podemos exercitar esse novo paradigma de conexão e humanização radical, e buscarmos “ser a mudança que queremos ver no mundo”, como propunha Gandhi.

Aproveite as festas de fim do ano para experimentar e nos conte aqui como foi! Se quiser apoio para praticar acesse: www.sinergiacomunicativa.com.br

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O voo da águia: violência na infância e o poder da empatia http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/2019/12/17/o-voo-da-aguia-violencia-na-infancia-e-o-poder-da-empatia/ http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/2019/12/17/o-voo-da-aguia-violencia-na-infancia-e-o-poder-da-empatia/#respond Tue, 17 Dec 2019 07:00:30 +0000 http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/?p=78 M., de 7 anos, rotulado de “criança problema”, corria pela quadra da escola puxando, batendo, cutucando, empurrando as outras crianças, que tentavam se desvencilhar, reclamavam, xingavam e por vezes batiam de volta.

A mãe de M. havia sido usuária de drogas e havia perdido a guarda de M., que viveu durante um ano numa instituição quando era menor, e há alguns anos vivia com o avô alcoólatra e a avó que trabalha fora o dia todo, desde que a mãe de M. morreu, assassinada em frente ao filho. Ufa… a vida dele me parecia mesmo assim, um parágrafo só, quase sem fôlego e sem pausas para respirar e elaborar toda essa intensidade trágica…

A professora gritava: “Pára, M.! Impossível esse menino!” Ele corria, rindo, parecia gostar da atenção que recebia, mesmo sendo uma “bronca” da professora ou os tapas das outras crianças.

Talvez tenha mesmo lhe faltado atenção e carinho especial nesses seus poucos anos de vida.

Observei a cena por alguns minutos, me conectando com essa angústia, talvez universal, de querer a atenção que todos nós, seres humanos, precisamos e muitas vezes não sabemos como consegui-la. Queremos ser vistos, apreciados, amados, compreendidos e nos sentirmos importantes para alguém e para o mundo.

Então, neste estado de compaixão e conexão com o que poderia estar acontecendo com ele, decidi intervir. Corri ao lado do menino, sorrindo e participando também da “brincadeira”, enquanto ele perseguia outra criança. Segurei-o delicadamente e ao mesmo tempo com firmeza, como quem segura com cuidado um passarinho frágil que se debate tentando atravessar uma janela de vidro.

Assim como o passarinho, ele tentou se desvencilhar, reclamando, chutando o ar: “Me solta! Me solta!”. Fui abraçando-o delicada, porém decididamente, com a intenção de me conectar com ele, sentando-me no chão e pegando-o no colo como se fosse um bebê:

Eu: “Olha! Eu achei um gatinho!” – eu sabia que ele gostava de gatos e que tinha dois. “Achei um filhotinho de gatinho, que bonitinho!”,  falei embalando-o como um bebê em meu colo…

M.: “Me solta, me solta. Eu tô suado!”, ele tentava sair, parecendo meio envergonhado por eu o estar abraçando e ele estar suado.

Eu: “Não tem problema que você tá suado”, insisti, embalando-o carinhosamente. “Olha que filhotinho fofinho todo suado que eu achei.”

M.: “Não sou!”, falou ao mesmo tempo que seu corpo começava a relaxar.

Eu: “É um filhotinho de cachorrinho, então? Olha que amorzinho.”

M.: “Não”, e seu corpo ia aos poucos se soltando, afrouxando, relaxando.

Eu: “Um filhote de passarinho?”

M.: “Não…”, agora M. parecia estar mais presente. Seus olhos, que antes evitavam os meus, agora me olhavam de relance, esboçando um sorriso e depois falando mais seriamente: “Não sou filhote.”

Eu: “Ah, não é um filhote, então? É um gato adulto? Um cachorrinho adolescente?”

M.: “Não. Eu sou uma águia!”, disse com entusiasmo, sentando-se em minha frente, os olhos brilhando e me olhando diretamente. Sorriu e me mostrou com as mãos como a águia voava. “E a águia sobe na laje e voa!”

Eu: “Nossa, que legal! E pra onde a águia voa?”

M.: “Ela voa por cima de todas as casas e ela é livre!”

Então era isso. “A águia” queria apenas liberdade. Poder voar por cima de todos os problemas da vida sem se deixar afetar tanto por eles. Olhar as coisas do alto, com perspectiva ampliada. Mantendo sua saúde, integridade e potência.

Assim começou nossa conversa, que do voo da águia passou para outros animais e assuntos. Logo as outras crianças se juntaram a nós, sentando-se conosco e conversando. A partir daí, M. interagiu tranquilamente com elas o restante do dia.

Nunca deixo de me surpreender com o poder da empatia, da compreensão e da conexão em vez do lugar convencional e “naturalizado” da bronca, da rotulação e da punição.

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Educação para realização pessoal ou para submissão? http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/2019/12/10/educacao-para-realizacao-pessoal-ou-para-submissao/ http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/2019/12/10/educacao-para-realizacao-pessoal-ou-para-submissao/#respond Tue, 10 Dec 2019 07:00:10 +0000 http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/?p=73 Algum tempo atrás estava arrumando meus cadernos e materiais escolares que minha mãe cuidadosamente guardou desde a pré-escola. Encontrei cadernos perfeitos, muito bem encapados por ela, com minha letra linda e super bem feita, desenhos caprichados, sem nenhuma dobrinha nos cantos das páginas, sem marca da pressão da caneta na página seguinte, pois usava um forro feito de cartolina entre uma folha e outra. Os cadernos eram a prova concreta da excelente aluna que eu era desde os meus primeiros anos escolares.

Enquanto folheava esses cadernos, uma sensação de angústia se apoderava de mim. Um certo enjoo, junto com tristeza, desânimo, cansaço, falta de esperança. Não me lembro das matérias, nem de me interessar por elas, minha lembrança é de obediência ao que me era pedido e total submissão ao sistema. Uma sensação de perda de tempo, tantos anos da minha vida fazendo coisas pelas quais não tinha o menor interesse e pelas quais era recompensada com excelentes notas, com a admiração e o incentivo dos professores e dos meus pais – as figuras de autoridade em minha vida. 

Então encontrei algumas folhas de rascunho meio amassadas e rabiscadas, com anotações desordenadas espalhadas pela página e alguns rascunhos de desenhos. Era uma peça de teatro que eu e algumas amigas tínhamos criado e encenado entre nós mesmas! Me enchi de alegria, vitalidade, entusiasmo, lembranças felizes ao encontrar algo que fazia sentido para mim! Eram apenas algumas poucas folhas valiosas de papel amassado, cheias de significado e boas memórias, em meio a caixas e mais caixas de cadernos perfeitos e sem sentido.

Me dei conta do quão opressivo tinha sido meu processo escolar e me perguntei qual era minha motivação em ter sido tão boa aluna se tudo era tão desinteressante para mim. Percebi que o que eu buscava era a aprovação e a aceitação dos meus pais e dos professores, as figuras de autoridade em minha vida. Fiquei muito triste em constatar isso e imagino que meus pais (e também professores) teriam preferido que minha motivação para ser boa aluna tivesse partido de um interesse genuíno pelos estudos, que me traria aprendizados verdadeiros e significativos, e uma vida mais feliz.

Me conectando agora comigo mesma, eu me dou conta que gostaria de ter conseguido não me importar tanto com a aprovação dos outros e ter feito mais bagunça, mais amizades e mais teatros durante minha infância. Provavelmente não seria tão boa aluna, mas teria sido uma criança mais alegre. 

Espero que um dia nosso sistema escolar e a educação que damos às crianças em nossa sociedade em geral se volte mais para o interior de cada uma delas. Que valorize mais a realização pessoal do que a submissão e a obediência. Para que cada pessoa aprenda desde cedo a se conectar mais profundamente consigo mesma, descubra seus interesses verdadeiros e aquilo que precisa para ter sentido e felicidade em sua vida, desenvolvendo plenamente seus potenciais. Que cada criança possa ter a liberdade de fazer coisas para alegrar seu coração e não apenas para ter aceitação. Que não precise escolher entre aprovação ou realização pessoal. 

Acredito que assim teremos adultos mais realizados e felizes, com mais capacidade e criatividade para enfrentar os problemas atuais da nossa sociedade, e construir um mundo melhor para todos.  

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Conexão com a natureza e ciclos femininos http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/2019/12/03/conexao-com-a-natureza-e-ciclos-femininos/ http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/2019/12/03/conexao-com-a-natureza-e-ciclos-femininos/#respond Tue, 03 Dec 2019 07:00:20 +0000 http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/?p=68 Alguns meses atrás fui  a uma oficina de ervas para ciclos femininos, oferecida por uma mulher indígena. Ela compartilhou conosco um pouco da sua história de vida, da cultura tupi guarani e dos conhecimentos ancestrais de cura pelas ervas medicinais. Além do aprendizado sobre fitoterapia, foram muitas histórias inspiradoras de amor e harmonia com o corpo e a natureza.

Ela nos contou sobre alguns costumes e hábitos indígenas, que são cercados de misticismo e respeito à natureza. Falou sobre sua adolescência e como, durante esse período, tanto as meninas quanto os meninos recebem atenção especial. Em sua cultura, acreditam que nesta fase da vida os jovens são mais suscetíveis a se deixar seduzir por seres encantados da natureza que podem levá-los permanentemente para outra dimensão. 

As meninas, quando têm a primeira menstruação, passam a morar na “casa das mulheres” por um tempo, que pode durar de 1 mês a mais de um ano. Durante este período, elas são acompanhadas pelas mulheres mais velhas e aprendem a se harmonizar com seu corpo e com os ciclos menstruais, e a conhecer as ervas que ajudam a regular a menstruação. Aprendem a se conectar com suas emoções, sua intuição e com a natureza. Recebem apoio, companhia e conhecimento.

Fiquei muito tocada com o relato, principalmente o cuidado, a atenção e o acolhimento que os adolescentes, especialmente as meninas, recebem neste período. 

Me choca e entristece ver o grande contraste entre visão de mundo apresentada por ela e a cultura na qual cresci, e como essa visão de mundo se reflete em nossas relações pessoais, em como tratamos uns aos outros e como nos organizamos socialmente nas culturas ocidentais.

De maneira geral, para as culturas indígenas os serem humanos são parte da natureza e a conexão com ela é fundamental. Cuidar da natureza e preservá-la é cuidar de nós mesmos, já que somos parte dela e não sobrevivemos sem ela. Existe uma postura de respeito, cuidado e preservação. 

Já nossa cultura ocidental vê a natureza como separada do ser humano, que deve conquistá-la e dominá-la, para usufruir de seus recursos. Considera o homem superior aos outros animais e à natureza. Existe uma postura de dominação, extração e destruição. 

Esta desconexão com a natureza se reflete em nossa cultura numa desconexão interna com nós mesmos. 

Ao contrário dessas adolescentes indígenas, minha adolescência e puberdade foram muito solitárias. Tive acesso a todo o conhecimento científico por meio de livros e processo educacional, mas não tive apoio emocional e psicológico. Não tive atenção especial ou uma comunidade para me apoiar neste período. Não aprendi a me conectar com meu corpo, meus sentimentos e minhas necessidades. Ao contrário, aprendi a me desconectar deles e me concentrar apenas no meu desenvolvimento intelectual. Aprendi a valorizar a racionalidade e a lógica, e a desvalorizar a intuição e as emoções. Cresci me desconectando da natureza e de mim mesma. Foram anos de desconexão interna e consequentemente desconexão das outras pessoas também. 

Tive cólicas menstruais terríveis minha vida toda, com vômitos e desmaios frequentes, de tanta dor. Tentei homeopatia, acupuntura, massagem, anticoncepcionais e diversas terapias, sem sucesso. Me conformei a tomar um remédio paliativo todo mês, para evitar sofrimento maior. 

Para minha surpresa – estou chocada até agora – não tive mais cólicas desde que participei da oficina de ervas para ciclos femininos alguns meses atrás! Tomei a garrafada de ervas medicinais que aprendemos a fazer durante a vivência e procurei seguir as indicações e dicas da instrutora. Tenho tentado me manter atenta e conectada comigo mesma durante o mês todo, respeitando os sinais do meu corpo e buscando fazer somente o que está bom para ele. Tenho buscado me manter consciente das situações e pensamentos que me causam estresse na hora em que acontecem, buscando respeitar meus limites e me acolher. Também reduzi o consumo de chocolate e açúcar. 

Me sinto mais conectada com uma parte de mim mesma, uma natureza interna que foi deixada de lado por tanto tempo. Acredito que especialmente a atenção consciente e o auto respeito ao meu corpo, minhas emoções e necessidades no decorrer do mês são pequenas alterações que surpreendentemente mudaram completamente como me sinto durante a menstruação! 

Celebro e sou grata pela possibilidade de ter conhecido e experimentado um pouco dessas tradições indígenas. Acredito que temos muito a aprender com elas!

A oficina da qual participei foi oferecida por Simone Takuá, cocriadora da Flora Tupi, iniciativa de uma família tupi guarani, que desenvolve uma série de cursos e vivências para compartilhar esse conhecimento ancestral. Seu objetivo é resgatar o auto cuidado, a relação da cura com a natureza, a expansão do conhecimento de cura indígena e a confecção de fitoterápicos. 

 Se tiver interesse em saber mais, acesse: http://vivencianaaldeia.org/

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Privilégio branco http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/2019/11/26/privilegio-branco/ http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/2019/11/26/privilegio-branco/#respond Tue, 26 Nov 2019 07:00:19 +0000 http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/?p=55 Privilégio branco é o nome dado às vantagens sistêmicas, simbólicas e materiais que as pessoas brancas têm em nossa sociedade em relação a pessoas não brancas. Isso significa que, ainda que nas mesmas circunstâncias sociais, políticas ou econômicas, pessoas brancas são mais beneficiadas que pessoas não brancas e esses benefícios vão se acumulando com o tempo. O privilégio branco está ligado diretamente à branquitude e ao racismo estrutural e cotidiano presente em nossa sociedade.

Seguem alguns exemplos de fatos corriqueiros, mas também chocantes embora normalizados, que ocorreram na minha família no decorrer de 4 gerações. Acredito que essas situações sejam representativas da história de tantas outras famílias brasileiras, nas quais fica muito fácil perceber a diferença de tratamento que pessoas negras e brancas receberam e ainda recebem em nossa sociedade. 

Minha bisavó, que era negra e nasceu alguns anos após o fim da escravidão, passou a vida trabalhando como empregada doméstica e nunca conseguiu realizar seu sonho de se tornar professora. Queria que seus filhos nascessem brancos para que tivessem mais oportunidades na vida. Acho isso muito triste, mas não a culpo por querer que seus filhos não sofressem tanto quanto ela. 

Isso de fato aconteceu. Tenho plena consciência de que a vida da minha avó, da minha mãe e minha seriam totalmente diferentes se fôssemos negras. Teríamos tido muito menos acesso a recursos e oportunidades, de geração em geração, a começar pela minha avó.  

Pelo simples fato de ter nascido branca, minha avó teve oportunidade de estudar, ao contrário de suas amigas negras, no orfanato onde cresceram. Apenas as meninas brancas eram enviadas para a escola, enquanto as negras nem sequer aprendiam a ler. 

Na geração seguinte, minha mãe me contou sobre a primeira vez que percebeu que o racismo existia. Ela tinha 7 anos e havia uma festa no clube da cidade onde morava, no interior de São Paulo. Mesmo não sendo sócias, as famílias da cidade costumavam participar das festas. Neste dia, seu primo de 16 anos, negro, que estava de visita, foi proibido de entrar no clube, enquanto seus irmãos da mesma idade eram bem-vindos. A única diferença entre eles era a cor da pele. 

Minha tia, irmã da minha mãe, trabalhou a vida toda num banco estadual. Um dia conversei com ela sobre o fato de, nos bancos, ainda hoje, quase não haver funcionários negros (exceto seguranças e pessoas que fazem a limpeza). Então ela me contou que, por lei, qualquer pessoa podia prestar concurso, porém, na prática, as provas das pessoas negras não chegavam nem a ser avaliadas, pois a primeira seleção era feita com base na foto do candidato e seus testes eram descartados. Fiquei chocada ouvindo isso. E minha tia não teria tido a oportunidade de trabalhar e se aposentar neste banco se fosse negra. 

Na minha infância estudei em períodos diferentes numa escola estadual e numa particular no mesmo bairro na cidade de São Paulo. Na escola pública a maioria das crianças era negra e com menos recursos financeiros. Já na escola particular não havia negros e a condição econômica de todos era muito melhor. Isso não é fruto do acaso. Está diretamente relacionado ao privilégio que as famílias brancas foram recebendo e acumulando com o tempo.

Mesmo levando em conta o esforço pessoal de cada um, sei que a ascensão social da minha família se deu em grande parte pelo “branqueamento” pelo qual ela passou. 

Mas, para falar a verdade, tenho certa dificuldade em identificar situações específicas nas quais eu tive vantagens no decorrer da minha vida pelo simples fato de ser branca. Mesmo as situações descritas acima não estiveram sempre no meu campo de atenção e consciência. É como se eu sofresse de uma certa cegueira quando se trata de perceber essas coisas.

Essa cegueira é característica comum do privilégio. Como estou acostumada com ele, a tendência é eu não perceber que o privilégio existe e que outras pessoas são tratadas de maneira diferente e não têm as mesmas vantagens que eu. Como não tenho o mesmo repertório de experiências de pessoas com menos privilégios, corro o risco de acreditar que estamos vivendo a mesma realidade, com as mesmas oportunidades, quando isso não é verdade. 

Então o problema aumenta quando acreditamos que as pessoas negras ou pardas estão tendo a mesma experiência que as brancas e não somos capazes de enxergar e entender as dificuldades impostas pelo sistema de acordo com a cor da pele. Às vezes a desigualdade é tão intensa e está em tantos detalhes da vida do dia a dia que chega a ser uma opressão esmagadora para quem a sofre mas é muitas vezes invisível para quem não a vive.

É justamente essa cegueira do privilégio que precisa ser superada por nós, brancos, para conseguirmos enxergar as desigualdades decorrentes do sistema racista em que vivemos e contribuir para transformá-lo.

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Consciência Negra http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/2019/11/19/consciencia-negra/ http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/2019/11/19/consciencia-negra/#respond Tue, 19 Nov 2019 13:49:40 +0000 http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/?p=50 Dia 20/11 é o Dia da Consciência Negra. Novembro é o Mês da Consciência Negra. Enquanto não houver consciência da desigualdade que as pessoas negras sofrem em nossa sociedade ainda será necessário haver um dia e um mês para nos lembrar de olharmos para isso. Se valorizamos a igualdade, a equidade e a justiça para todas as pessoas independentemente de sua cor ou raça, precisamos nos conscientizar da importância de transformar essa realidade.

Semana passada estive na Chapada Diamantina, na Bahia. No hotel onde fiquei todos os funcionários eram negros. Não vi nenhum hóspede negro. Isso é algo para se estranhar, num país onde mais de 50% são negros ou pardos e especialmente na Bahia, que é o único estado brasileiro onde há mais pretos autodeclarados do que brancos. Se não estranhamos é porque estamos tão acostumados com o racismo estrutural que permeia nossas vidas diárias, que não percebemos ou achamos normal que a maioria das pessoas em funções subalternas sejam negras enquanto quase não se vê negros em função de liderança ou destaque. 

Quando morei no Paraná, chamei uma moça para fazer faxina na minha casa e ela era loira de olhos azuis. Isso me causou estranhamento, pois nunca tinha conhecido uma faxineira loira de olhos azuis. Esse estranhamento não existiria se vivêssemos numa sociedade igualitária onde as funções e profissões não estivessem distribuídas de acordo com a cor da pele. Onde as profissões menos valorizadas e que recebem menos salários não fossem ocupadas majoritariamente por pessoas negras. 

O racismo no Brasil está cristalizado em nossa cultura de um modo tão normalizado que muitas vezes não o percebemos. Mas podemos identificá-lo facilmente se prestarmos um pouco de atenção. Não é difícil constatar que poucas pessoas negras ocupam cargos de chefia em grandes empresas e que a maioria dos estudantes nas melhores universidades é branca. Simplesmente ligando a TV podemos notar a baixa representatividade de pessoas negras, e ainda é possível escutar por aí expressões e piadas racistas. 

 O racismo que vivemos hoje é fruto dos mais de 300 anos de escravidão e da subsequente falta de reparação e contínua opressão sistêmica que os negros ainda sofrem. 

Então a primeira coisa a fazer é nos conscientizar, perceber essas desigualdades e discutir o assunto, para então nos mobilizarmos e transformar essa realidade. Se não conseguimos nem ao menos enxergar e reconhecer o racismo presente na sociedade onde vivemos, não fazemos nada respeito. E assim ele se perpetua, invisibilizado dentro de uma normalidade desigual e injusta no dia a dia.

Essa conscientização é necessária para todos, mas principalmente para nós, brancos, pois como não vivemos o racismo na pele, temos mais dificuldade em percebê-lo. Precisamos exercitar nossa atenção, empatia e senso crítico para transformar o racismo, que é estrutural, sistêmico e cultural e está dentro de todos nós de alguma forma, mesmo que inconscientemente.

O racismo não se manifesta apenas em forma de discriminação racial direta, mas também de maneira institucional, estrutural e cultural. Ele permeia a todos nós não porque queremos ou porque somos pessoas más, mas porque fomos criados numa sociedade racista e expostos a ele como algo normalizado. E assim, por ser a norma, ele se torna invisível. Invisível na estrutura como nossa sociedade se organiza e invisível quando ocorre dentro de cada um de nós e em atitudes que tomamos sem perceber. 

 Certo dia eu estava no Mercado Central de Belo Horizonte e em duas lojas diferentes pessoas pensaram que eu fosse a vendedora. Achei curioso, pois isso nunca tinha acontecido comigo. Então comentei o fato com uma amiga e ela disse que com ela acontece quase todos os dias. Pois ela é negra. E inconscientemente as pessoas associam sua cor de pele com o papel de funcionária e não de cliente. Assim o racismo estrutural se manifesta em “pequenas” situações do dia a dia, em microagressões ou discriminações “sutis”.

 Como qualquer transformação estrutural, reconhecer o racismo em todas as suas dimensões e combatê-lo não é tarefa fácil, e é necessária a ação de todos, brancos e negros.

Se reconheço que sou produto de um sistema racista, preciso me conscientizar de como ele se manifesta em mim em pensamentos e atitudes, para que eu possa escolher diferente e deixar de reproduzir automaticamente o que o sistema me “treinou” a fazer.

Então celebro o Dia e o Mês da Consciência Negra, e todos os movimentos e debates que têm surgido cada vez mais para que essa consciência se espalhe, ao ponto de não ser mais necessária uma data específica para nos lembrar que a igualdade racial ainda não existe no nosso país e no mundo. 

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Como minha avó enganou a Morte http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/2019/11/12/como-minha-avo-enganou-a-morte/ http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/2019/11/12/como-minha-avo-enganou-a-morte/#respond Tue, 12 Nov 2019 07:00:02 +0000 http://sandracaselato.blogosfera.uol.com.br/?p=39 Esta semana faz oito anos que minha avó Olga faleceu. Lembrando dela, procurei este texto, uma fantasia baseada em fatos verídicos, escrita com muita criatividade pela minha mãe, Eleonora Sampaio Caselato. Retrata com humor a inteligência e a astúcia da minha avó, que amava a vida e tinha uma enorme capacidade de adaptação e de auto preservação.

“Naquela noite de 1957, quando o Aderbal (meu pai) teve uma séria crise de úlcera estomacal, a Morte fez uma reunião com os adultos da família: Aderbal, Maria Carolina (minha avó) e Olga (minha mãe). Apresentou seus argumentos para levar consigo o chefe da casa: tinha sido um boêmio, não tinha cuidado bem da saúde como devia até casar-se com Olga e fumava cerca de três maços de cigarro por dia.

As duas se apressaram em fazer a defesa do pretendido pela Morte. Contaram, com muitos exemplos, como ele tinha mudado muito depois do casamento, como se importava com os filhos, como dava duro para manter a família. A Morte foi amolecendo, mas ainda insistia que deveria levá-lo, até que o próprio Aderbal conseguiu fazê-la mudar de ideia, alegando que seu caçula tinha apenas cinco anos, que ele gostaria muito de vê-lo formado, homem feito.

Mesmo assim, a Morte quis, em contrapartida, fazer um acordo. Pediu à Olga que se sentasse em frente à velha máquina de escrever Triumph e datilografasse o que iria ditar:

Compromisso de Morte

Daqui 20 anos volto para buscá-lo. Espero que o caçulinha não fique enrolando, estude bastante e esteja formado aos 25. Vocês duas irão depois, de dez em dez anos.

Olga perguntou se poderia explicar melhor as datas. A Morte consentiu, e ela escreveu:

Ficaremos, então, assim combinados:

Aderbal, em 77; Maria Carolina, em 87; e Olga, aos 97.

A Morte leu, não percebeu a troca de preposição que a esperta Olga tinha feito e concordou.

Aderbal partiu em 19 de abril de 1977.

Maria Carolina foi levada em 6 de novembro de 1987.

Olga nos deixou em 15 de novembro de 2011, aos 97 anos.

Dessa forma, D. Olga enganou a Morte e ficou entre nós 14 anos mais do que a Morte queria.

Sorte a nossa!”

Por Eleonora Sampaio Caselato

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