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Sandra Caselato

Ter filhos não é brincadeira

ECOA

03/03/2020 04h00

De alguma forma eu sempre tive essa consciência. Pensava comigo mesma que só teria filhos quando me sentisse preparada e quando minha vida estivesse estabilizada. Isso nunca aconteceu. 

 Vejo os desafios de amigos e conhecidos na educação de seus filhos e penso: ainda bem que não tive filhos. Às vezes testemunho o amor entre pais/mães e filhos em momentos emocionantes e penso: que pena que não tive filhos, quem sabe ainda tenha. 

 Como dizia Vinicius de Moraes: "filhos? Melhor não tê-los! Mas se não os temos, como sabê-los?"  

 Enquanto isso, fico pensando sobre o que considero ser uma boa infância e que qualidade de vida, de relações e de educação acho importantes para uma criança. Vejo algumas famílias que me inspiram e outras que me causam desespero. 

 Outro dia, na piscina do prédio onde moro, estavam o pai, o filho de aproximadamente 6 anos e a filha de uns 11 anos. Eram 3 pessoas brincando, conversando, cantando, se divertindo, com tranquilidade e harmonia. Depois de uns 40 minutos eles se foram e chegou uma nova família: a mãe, o pai, o filho e o primo, ambos de aproximadamente 6 ou 7 anos. Logo ao chegar o menino colocou as toalhas numa cadeira e foi correndo em direção à piscina. A mãe gritou irritada: "por que vc colocou minha toalha lá longe?! Traz pra cá!". O filho voltou, pegou a toalha e entregou para a mãe. Perguntou receoso: posso entrar na piscina? A mãe respondeu, sem olhar para ele: pode. Os meninos entraram na água enquanto os adultos conversavam sentados à sombra. De tempos em tempos a mãe gritava para o filho não fazer alguma coisa: "não pula na água!", "sai da escada", etc. O pai não se dirigiu às crianças em nenhum momento. O primo parecia estar tranquilo, querendo se divertir, brincar. O filho parecia tenso, preocupado, olhando para a mãe a todo momento, como que esperando o próximo grito. 

 Foi muito chocante ver o contraste da relação dos adultos com as crianças nas duas famílias naquele momento. Enquanto em um caso parecia haver respeito mútuo, atenção e conexão entre as pessoas, no segundo todos pareciam desconectados de si mesmos e entre si. A mãe parecia irritada e brava, o pai desligado, o filho com medo e o primo meio alheio a tudo isso, querendo apenas brincar. 

 Presenciar essas cenas me faz pensar o quanto a qualidade de presença e conexão dos adultos consigo mesmos e com as crianças "dá o tom" da vida em família e do desenvolvimento de uma criança. Mas reconheço o quanto é desafiador manter o equilíbrio emocional e a estabilidade no tipo de sociedade em que vivemos, devido às preocupações com trabalho, estabilidade financeira, falta de tempo, falta de apoio de uma comunidade mais ampla, pouca conexão com a natureza, etc.

 Fico muito inspirada com a forma como um outro casal de amigos se relaciona, a qualidade de presença e interação que vivem com o filho de 4 anos. Nunca vi o menino fazer "escândalo" ou chorar perdendo o controle. Diversas vezes presenciei ele agarrando a roupa da mãe ou do pai, se pendurando ou cutucando, às vezes de maneira desagradável para eles. Em todas as vezes vi eles se voltarem para o filho, se abaixarem para ficar na mesma altura, olhando em seus olhos e, sempre num tom calmo, perguntarem por exemplo: "filho, você está querendo a minha atenção?". Em resposta o menino dizia que sim, se acalmando imediatamente e mudando completamente seu comportamento. Às vezes os pais seguiam conversando com o filho, às vezes diziam para ele que estavam ocupados conversando comigo e pediam para ele esperar. Nas duas situações o filho se tranquilizava. Nunca vi os pais dando bronca, gritando ou brigando com o filho. Costumam conversar com ele tranquilamente e em resposta o filho fala tranquilamente também.

Percebo também que em suas conversas está muito presente a expressão de sentimentos, que parece que vai sendo naturalmente aprendida e reproduzida pelo filho. Assim ele vai desenvolvendo sua inteligência emocional e capacidade de expressar seus sentimentos e inquirir empaticamente sobre os sentimentos dos pais. 

 Comentei com eles que admiro muito a forma como eles se relacionam com o filho e eles me disseram que é um desafio diário, mais ou menos como uma meditação constante em que buscam manter o próprio equilíbrio para manter um ambiente emocionalmente estável e conseguir lidar com o desequilibro do filho, quando este aparece. Também me confidenciaram que passaram por um período muito difícil, quando o filho era menor e a mãe ficava com ele 24 horas por dia, com muito pouco apoio do pai, que viajava bastante, e sem nenhuma rede de apoio. "Quase fiquei louca", me disse ela. 

Percebo o quanto é desafiador manter a consciência em busca de oferecer ao filho uma qualidade de relação, conexão e apoio que possa ajudá-lo a crescer e se desenvolver plenamente, protegido de traumas em seus anos formativos. Principalmente devido ao sistema cultural e socioeconômico em que vivemos, onde a mãe muitas vezes precisa trabalhar fora desde cedo ou se sente dividida entre sua realização profissional e a consciência da importância da conexão da criança com a mãe em seus primeiros anos de vida.

 Uma amiga uma vez me disse: "para ter filhos você não pode pensar, se você parar para pensar você não tem". Acho que tenho pensado muito… 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre a autora

Psicóloga, com graduação em artes plásticas e especialização em didática, Sandra Caselato é uma exploradora dos processos psicológicos e das relações humanas, com especial interesse na transformação de conflitos e no fortalecimento da cultura de paz. Atua com desenvolvimento humano há mais de 20 anos, aprofundando-se em práticas que favorecem o diálogo, a transformação pessoal e social por meio da conexão humana.

Sobre o blog

Como você se relaciona consigo mesma(o), com as pessoas a sua volta e com o mundo? Como você lida com os conflitos que se apresentam em sua vida e ao seu redor? Sandra Caselato traz reflexões sobre como viver uma vida mais conectada com os próprios valores, enxergar com empatia além das aparências e construir espaços seguros para conversas necessárias, criando o mundo em que queremos viver.