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Sandra Caselato

O Jogo das Soluções

ECOA

18/02/2020 04h00

D. Maria* contou que certa vez estava tentando resolver um conflito entre seus dois netos, de 4 e 6 anos de idade, quando teve a ideia de aplicar os princípios da CNV (Comunicação Não-Violenta), que vinha estudando há 5 anos. 

Já tinha se frustrado muitas vezes anteriormente quando os netos brigavam e ela se esquecia totalmente da CNV, voltando ao antigo paradigma, muito familiar, em que assumia o papel de juíza e dizia quem estava certo e quem estava errado, impondo uma solução para a briga. 

Mas desta vez, antes mesmo de chegar na casa dos netos, prometeu a si mesma que ficaria consciente nos momentos de conflito e encontraria soluções colaborativas que demonstrassem que as necessidades de todos importam e podem ser cuidadas enquanto se tenta encontrar uma solução que funcione para todos.

E assim aconteceu. Logo que os pais das crianças saíram de casa, para passar um fim de semana fora, Joana pegou de dentro do baú de brinquedos um papel em formato de coração. Ao ver o coração, João o tirou de sua mão e disse: "esse coração é meu, fui eu que fiz!". Joana imediatamente respondeu: "mas eu peguei primeiro!" E assim começou o conflito. 

Só que desta vez, do nada, D. Maria teve a inspiração de dizer: "Ei, eu acho que nós temos um dilema aqui. Essa é uma grande oportunidade de jogarmos o Jogo das Soluções. Vocês sabem jogar o Jogo das Soluções?" – ela sabia que a palavra "jogo" chamaria a atenção dos netos. 

Ambos olharam para ela com uma expressão de curiosidade e surpresa. "Não", responderam.

"Bem, o jogo funciona assim" – disse D. Maria – "Sempre que há um dilema, um conflito ou uma briga, o objetivo do jogo é usar nossa imaginação para inventar uma solução que funcione para todos. Cada um tem sua vez de jogar e quando um de vocês inventar uma solução que funcione para os dois então nós ganhamos o jogo! É muito divertido! Vocês querem jogar?"

"Sim!" – disseram com entusiasmo.

"Legal!" – disse D. Maria – "Joana, você é a mais nova, então você começa. Pense bem e me avise quando você tiver uma solução que você acha que vai funcionar para vocês dois."

Joana pensou talvez por 1 minuto e disse com entusiasmo e alegria: "Eu fico com o coração porque eu achei primeiro".

"Tá bom" – disse D. Maria – "Sua solução é que, como você achou primeiro o coração, você fica com ele. É isso?" 

"Sim" – disse Joana.

"Muito bem, então agora a próxima coisa que precisamos fazer é verificar com João e ver se essa solução funciona para ele. Lembre-se que a solução tem que funcionar para todos". Virando-se para João, D. Maria disse: "João, a solução que a sua irmã propôs é que ela fica com o coração porque ela achou primeiro. Isso fica bom pra você?" 

"Não!" – exclamou João com o rosto franzido. 

Virando-se para Joana, D. Maria disse: "Joana, talvez você tenha outra rodada, então continue pensando. Sua proposta não funcionou para o João, então agora é a vez do João". Quando D. Maria se voltou para o João, viu que ele estava segurando o coração na frente do seu rosto, prestes a rasgá-lo ao meio. "Espere João" – disse D. Maria – "eu imagino que a sua solução é cortar o coração no meio, dar metade para a Joana e ficar com a outra metade. É essa sua solução?" 

"Sim!" – disse João.

"Certo. Lembre que precisamos checar com a Joana para ver se funciona para ela. A solução precisa ser boa para vocês dois." Virando-se para Joana, D. Maria disse: "A solução do João é rasgar o coração ao meio, dar metade pra você e ficar com a outra metade. Isso funciona para você?"

Joana pensou por alguns instantes e, em seguida, para surpresa de D. Maria, disse com um grande sorriso no rosto: "Sim, funciona para mim."

"Sim!!" – gritou D. Maria – "ganhamos o jogo das Soluções!" 

Durante o fim de semana, D. Maria e os netos tiveram muitas oportunidades de jogar o Jogo das Soluções novamente. João e Joana muitas vezes começaram o jogo por conta própria, quando surgia um conflito, sem qualquer ajuda da avó. 

O mais surpreendente foi quando a mãe das crianças, três semanas depois, agradeceu muito a D. Maria pelo Jogo das Soluções, dizendo que os filhos estavam resolvendo sozinhos seus próprios conflitos, sem chamar os pais para mediar!

*Os nomes nesta história são fictícios. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre a autora

Psicóloga, com graduação em artes plásticas e especialização em didática, Sandra Caselato é uma exploradora dos processos psicológicos e das relações humanas, com especial interesse na transformação de conflitos e no fortalecimento da cultura de paz. Atua com desenvolvimento humano há mais de 20 anos, aprofundando-se em práticas que favorecem o diálogo, a transformação pessoal e social por meio da conexão humana.

Sobre o blog

Como você se relaciona consigo mesma(o), com as pessoas a sua volta e com o mundo? Como você lida com os conflitos que se apresentam em sua vida e ao seu redor? Sandra Caselato traz reflexões sobre como viver uma vida mais conectada com os próprios valores, enxergar com empatia além das aparências e construir espaços seguros para conversas necessárias, criando o mundo em que queremos viver.