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Afinal, o que é privilégio?

ECOA

28/01/2020 04h00

Acho curioso como atualmente a palavra privilégio tem causado certa comoção e ganhado conotação de xingamento para muitas pessoas. Acredito que isso acontece por um entendimento equivocado do significado da palavra.

Gostei muito da explicação de um amigo que trabalha com TI (Tecnologia da Informação). Ele disse que em sua área profissional, privilégio é o nome dado à permissão que apenas alguns usuários têm, num sistema de computador, para executar determinadas ações ou acessar determinadas áreas. Por exemplo, criar ou alterar um arquivo. Simples assim. Se todos têm acesso ou controle sobre algo, então não há privilégio. Privilégio existe somente em relação a outros não terem as mesmas possibilidades ou vantagens.

Alguns privilégios existem de acordo com a função que a pessoa ocupa em uma instituição e se misturam com a responsabilidade do cargo. Por exemplo o acesso à chave do portão de uma escola, que normalmente é restrito a apenas algumas pessoas.

Outros privilégios são adquiridos por habilidades desenvolvidas, capacidade ou esforço pessoal, como por exemplo o treinamento físico, estudar para passar no vestibular ou no concurso para um emprego, etc.

Ao mesmo tempo, há privilégios que não dependem de nossas habilidades pessoais, mas são dados a priori, como as condições físicas e de saúde com as quais nascemos ou nossa idade, por exemplo, que pode significar mais ou menos privilégios em certos contextos no decorrer da vida.

Além disso, há privilégios que existem por causa da forma como nossa sociedade se estrutura e das relações de poder nela existentes. De acordo com as condições nas quais a pessoa nasceu, ela terá mais ou menos acesso a certas coisas, como até mesmo ter ou não suas necessidades básicas na infância atendidas e acesso à escola, por exemplo.

Muitos privilégios são uma combinação desses vários tipos citados anteriormente em diferentes gradações, já que os sistemas sociais e culturais influenciam as condições socioeconômicas de diferentes grupos e consequentemente facilitam ou dificultam o desenvolvimento das habilidades individuais. Quem teve na infância acesso a boas escolas, por exemplo, e não precisou trabalhar para apoiar no sustento de sua família desde cedo, terá mais chances de passar no vestibular e conseguir um bom emprego do quem quem nasceu em condições socioeconômicas menos favorecidas.

Além disso, como o privilégio é sempre contextual e relativo, todos nós individualmente temos certos privilégios em relação a outras pessoas em determinadas circunstâncias ou áreas de nossas vidas.

Transpondo da experiência individual para um âmbito sistêmico ou estrutural mais amplo, podemos verificar que certos grupos com características específicas têm mais privilégios do que outros devido à forma como nossa sociedade se estrutura culturalmente e economicamente.

Por exemplo, podemos verificar por meio de dados estatísticos, que um homem tem certas vantagens sistêmicas ou estruturais em relação a uma mulher em nossa sociedade: os homens ganham mais que as mulheres exercendo a mesma função, mesmo que em muitos casos elas tenham maior escolarização (veja pesquisas do IBGE e da CATHO.

Porém se o homem for negro, ele tem menos privilégios em certos aspectos em relação a uma mulher branca. Além de receber menos, ele está sujeito a discriminação racial no próprio trabalho e em sua vida em geral, por exemplo. Segundo dados do Ipea, "homens brancos têm os melhores rendimentos, seguidos de mulheres brancas, homens negros e mulheres negras."

A mulher negra está na base da pirâmide, abaixo das mulheres brancas e dos homens brancos e negros em todos os aspectos. Dados sobre a violência contra a mulher, por exemplo, mostram que as mulheres negras sofrem mais violência que as brancas – o feminicídio contra mulheres brancas diminuiu enquanto contra mulheres negras aumentou (Veja Atlas da Violência 2019).

Uma pessoa transgênera, que não se identifica com o gênero que lhe foi designado socialmente ao nascer, sofre discriminação (o Brasil é o país que lidera o ranking mundial de assassinatos de transexuais, segundo a ONG Transgender Europe (TGEu). Porém uma pessoa transexual com bastante dinheiro, tem mais vantagens em nossa sociedade do que outras pessoas com poucos recursos financeiros. 

Resumindo: o privilégio é sempre relativo a características e situações individuais específicas e todos nós temos mais ou menos privilégios em determinados aspectos de nossas vidas, dependendo de nossas habilidades, função e condições de nascimento.

Como mencionei acima, nossa sociedade se estrutura em sistemas culturais e socioeconômicos que tendem a privilegiar mais determinados grupos em detrimento de outros, que acumulam, então, mais recursos e poder para desenvolver suas habilidades pessoais e agir no mundo, concentrando mais recursos, poder, privilégios e acentuando desigualdades.

Da mesma forma que os privilégios se acumulam, as desvantagens (ou desprivilégios) também se sobrepõem. A pesquisadora Kimberlé Crenshaw criou o termo 'interseccionalidade' para explicar como identidades sociais sobrepostas ou interseccionadas, particularmente identidades minoritárias, se relacionam com sistemas e estruturas de opressão, dominação ou discriminação. Por exemplo, o racismo, o sexismo, o classismo, o capacitismo, a homofobia e a transfobia e intolerâncias baseadas em crenças não agem independentemente uns dos outros, mas interagem em níveis múltiplos e simultâneos se sobrepondo uns aos outros.

Essas vantagens e desvantagens não são definidas e decididas por cada um de nós individualmente, mas pelas estruturas e sistemas socioeconômicos e culturais, e são muitas vezes difíceis de enxergar, principalmente quando acumulamos mais privilégios. Quanto mais privilégios acumulamos, menos tendemos a percebê-los e somos tomados por uma certa "cegueira do privilégio".

Para enxergar o que não vemos podemos começar olhando em volta com atenção buscando perceber como em nosso dia a dia os privilégios se manifestam nos ambientes onde circulamos, nas instituições, nas estruturas sociais, na nossa cultura e na nossa vida e subjetividade. Podemos desenvolver a habilidade de perceber onde estamos contribuindo com nossa maneira de pensar e nossas ações (ou falta de ação) que acabam perpetuando essas desigualdades e discriminações, para que possamos caminhar para uma sociedade mais justa para todos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Sobre a autora

Psicóloga, com graduação em artes plásticas e especialização em didática, Sandra Caselato é uma exploradora dos processos psicológicos e das relações humanas, com especial interesse na transformação de conflitos e no fortalecimento da cultura de paz. Atua com desenvolvimento humano há mais de 20 anos, aprofundando-se em práticas que favorecem o diálogo, a transformação pessoal e social por meio da conexão humana.

Sobre o blog

Como você se relaciona consigo mesma(o), com as pessoas a sua volta e com o mundo? Como você lida com os conflitos que se apresentam em sua vida e ao seu redor? Sandra Caselato traz reflexões sobre como viver uma vida mais conectada com os próprios valores, enxergar com empatia além das aparências e construir espaços seguros para conversas necessárias, criando o mundo em que queremos viver.