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Roberto Alvim e a "banalidade do mal"

ECOA

21/01/2020 04h00

Na última semana, o tema nazismo veio à tona novamente na mídia depois que o então Secretário da Cultura, Roberto Alvim, fez um pronunciamento semelhante ao de Joseph Goebbels, ministro da propaganda da Alemanha nazista.

Lendo sobre o assunto, me surgiu a seguinte pergunta: que tipo de pensamento ou entendimento de mundo e de ser humano permite que atrocidades como as que aconteceram durante o nazismo sejam possíveis?

Considero essa pergunta essencial, pois ela possibilita visibilizar um padrão de pensamento que nem sempre é reconhecível enquanto ainda é incipiente, apenas uma semente que, se "adubada", se transformará numa árvore indesejada, como foi o nazismo.

Esse questionamento é uma forma de colocar em prática a lição que Hannah Arendt nos deixou ao escrever "Eichmann em Jerusalém" e cunhar o termo "banalidade do mal". Ela nos convida a sermos mais vigilantes em nossa reflexão crítica e diminuirmos a possibilidade de, sem perceber, reproduzirmos e participarmos de atrocidades. Eichmann era um burocrata que enviou milhões de judeus para os campos de extermínio nazistas, mas não se considerava responsável por sua morte, pois, como funcionário exemplar, estava apenas executando seu trabalho.

O próprio Alvim parece ter dificuldade em fazer esta reflexão crítica, pois diz ter "profundo repúdio a qualquer regime totalitário" e declara sua "absoluta repugnância ao regime nazista". Entretanto, não vê problema no conteúdo e no tipo de pensamento presente em seu pronunciamento que chamou de "infeliz coincidência retórica", e diz que "não há nada de errado com a frase" semelhante ao discurso nazista. Ou seja, ele vê problema na árvore e em seus frutos, mas não vê problema na semente. Não percebe que o tipo de pensamento que defende é a semente da árvore que diz repudiar.

A maneira como nossa sociedade se organiza não acontece ao acaso. Ela está diretamente relacionada a formas e padrões de pensamento que moldam nosso entendimento do mundo e definem a forma como nos relacionamos entre nós e com o meio onde vivemos.

Certos modelos e tipos de pensamento estão na raiz de como entendemos o mundo e o ser humano, e na maneira como nos organizamos cultural e socialmente em instituições e sistemas, na busca de atender nossas necessidades humanas de subsistência, interdependência, propósito, proteção, conexão etc. Por exemplo, na atualidade dividimos geograficamente o planeta em nações/estado (países), onde cada grupo ou região se organiza em um determinado sistema econômico, político, jurídico, educacional, com um tipo específico de alimentação, agricultura, forma de moradia, organização familiar, saúde, cuidado com crianças e idosos, modelos de transporte, um certo consenso ou senso comum sobre o que é considerado bom ou mau, normal ou anormal, adequado ou inadequado, aceitável ou inaceitável etc.

Convido então a refletirmos sobre duas formas de olhar e pensar sobre o mundo: uma inclusiva e outra excludente. O pensamento inclusivo aceita e valoriza a diversidade e o diálogo, buscando acolher e cuidar de todos. Já o pensamento excludente prega a ideia de que existe uma maneira correta e única de entender o mundo e a vida, e a impõe sobre os outros. É a ditadura do pensamento único, que no decorrer da história já matou muita gente.
Aí reside o perigo: a base ou a semente do pensamento que permite que uma sociedade se organize de maneira a cometer atrocidades, como as que o regime nazista cometeu, é o pensamento dicotômico, binário e maniqueísta, que compreende o bem e o mal de modo absoluto.

Esse pensamento se fundamenta na a ideia binária de separação, na desumanização da imagem de um OUTRO que, diferente de NÓS, é essencialmente mau, errado, degenerado, repugnante, uma aberração, perigoso, monstruoso, irrecuperável etc.

Esse tipo de pensamento é a porta de entrada para a violência que passa a ser justificada já que esse OUTRO, que encarna o mal, "precisa" ser combatido e até mesmo eliminado.

Essa ideia de um OUTRO que é "diferente" e foge da "norma" se manifesta hoje em racismo, machismo, homofobia, transfobia, preconceito religioso e de classe social, e em tantas outras formas de discriminação. Se manifesta também na ideia de que existe uma "cultura verdadeira" ou boa, uma arte melhor e outra pior. E assim vai crescendo a semente de um pensamento moralista, maniqueísta e excludente, que muitas vezes resulta em regimes impositivos, totalitários e assassinos, como foi o nazismo.

Sobre a autora

Psicóloga, com graduação em artes plásticas e especialização em didática, Sandra Caselato é uma exploradora dos processos psicológicos e das relações humanas, com especial interesse na transformação de conflitos e no fortalecimento da cultura de paz. Atua com desenvolvimento humano há mais de 20 anos, aprofundando-se em práticas que favorecem o diálogo, a transformação pessoal e social por meio da conexão humana.

Sobre o blog

Como você se relaciona consigo mesma(o), com as pessoas a sua volta e com o mundo? Como você lida com os conflitos que se apresentam em sua vida e ao seu redor? Sandra Caselato traz reflexões sobre como viver uma vida mais conectada com os próprios valores, enxergar com empatia além das aparências e construir espaços seguros para conversas necessárias, criando o mundo em que queremos viver.

Sandra Caselato