PUBLICIDADE
Topo

Histórico

Categorias

Fim de ano, família e política: é possível conversar com quem discordamos?

ECOA

24/12/2019 04h00

Fui convidada a falar para o podcast NOVO NORMAL, um projeto maravilhoso do Agora É Que São Elas em parceria com o Spotify Brasil, que foi ao ar ontem, dia 23 de dezembro. A entrevista foi sobre os desafios que muitos de nós enfrentaremos na noite de Natal e nas festividades de fim de ano com nossas próprias famílias. Então decidi escrever aqui também um pouco mais sobre o tema, para quem sabe contribuir com relações familiares mais conectadas e harmoniosas neste final de 2019.

Desde antes das eleições presidenciais no ano passado muitas pessoas romperam relações com parentes ou passaram a evitá-los. Agora chegou a época do ano em que novamente surge o desafio da família estar reunida sem que os ânimos se exaltem e as festas sejam arruinadas por discussões políticas. Muitas famílias estão inclusive combinando de proibir o tema. Grande desafio.

Mesmo com o cansaço de discutir o assunto nas redes sociais, presencialmente surge muitas vezes a tentação de "dar aquela alfinetada" na pessoa de opinião contrária ou o desafio de não se incomodar com a "cutucada" indireta ou mesmo direta de alguém.

Cada um tem suas certezas e quer defender seu ponto de vista como o único sensato e correto. O foco tende a ficar todo naquilo que divergimos e não conseguimos mais enxergar as milhares de outras coisas que nos conectam. As diferenças ficam ampliadas, como se não houvesse mais nada que nos unisse. E de repente aquela tia querida se torna para mim um monstro horroroso.

Praticando Aikido (a Arte da Paz) e Comunicação Não-Violenta (CNV) venho há muitos anos aprendendo a lidar com esses "monstros". Tenho aprendido a não me apegar tanto aos "ataques", a sair da frente e desviar quando vem em minha direção algo que pode me machucar, seja física ou emocionalmente.

Cuidando de mim primeiro, garantindo minha própria integridade e equilíbrio, posso encontrar disposição interna para tentar olhar pelos olhos da outra pessoa e buscar entender o que está por trás das suas ações ou palavras.

É claro que às vezes autocuidado vai significar evitar conversas ou mesmo deixar de ir aos encontros familiares. Então a primeira coisa é a escolha, decidir se quero experimentar fazer algo diferente. Se consigo encontrar internamente motivação para me reconectar verdadeiramente com pessoas que são queridas para mim, além da superfície, dos estereótipos e dos ressentimentos, talvez seja o momento para experimentar algo novo.

É o que eu chamo de um processo de humanização radical, uma tentativa de encontrar por trás daquilo que eu acho absurdo e inconcebível, valores com os quais posso me conectar. Um movimento audacioso e tenaz de não considerar apenas o aspecto superficial e visível do que o outro faz ou diz, mas tentar encontrar a humanidade por trás. Por mais horríveis que eu considere as palavras ditas, busco me conectar com os possíveis sentimentos e motivações da pessoa. Será que lá no fundo ela tem muito medo e anseia por segurança? Qual será sua compreensão sobre o mundo? O que na verdade está levando a pessoa a pensar como pensa?

Esse exercício de curiosidade genuína e respeitosa é parte do processo de transformar o "inimigo" em "amigo", o "monstro" em "ser humano". Esta habilidade está conectada aos movimentos de não-violência propostos por Gandhi, Martin Luther King Jr. e Mandela, que estão na origem da Comunicação Não-Violenta e ligados aos fundamentos do Aikido.

Fazer esta manobra interna não significa concordar, passar a mão na cabeça nem me submeter ou aceitar o que considero inconcebível. É um movimento de empatia, de tentar me colocar no lugar do outro e entender profundamente qual a essência de onde a pessoa parte para chegar ao ponto de pensar o que pensa. É descobrir essa essência da qual partilhamos, os valores que temos em comum, que vão além das nossas divergências.

Empatia não significa estar de acordo. Posso compreender profundamente as motivações, valores e necessidades humanas universais por trás do que foi dito e ao mesmo tempo discordar completamente do conteúdo e da forma de dizer.

Gandhi falava sobre separar a pessoa de seus atos. Podemos nos conectar com a pessoa, com sua humanidade e, ao mesmo tempo, discordar de seus atos. Enxergar os adversários não como "inimigos" mas como seres humanos que também estão buscando ser felizes. Ao nos colocarmos no lugar do outro, percebemos que todas as pessoas estão apenas defendendo sua felicidade da melhor maneira que podem ou sabem.

O interessante é que quando me disponho a este movimento corajoso e determinado de buscar compreender de verdade as motivações mais profundas, os valores mais preciosos por trás do que a pessoa está falando ou fazendo (e que muitas vezes a própria pessoa não tem consciência deles), algo quase mágico acontece.

A pessoa "baixa a guarda" pois se sente compreendida em sua humanidade, e uma conexão entre nós se estabelece. A sensação de oposição se dissipa e a partir dessa conexão verdadeira um espaço se abre para que algo novo aconteça. Um lugar interno de escuta se amplia, e novas perspectivas e compreensões são possíveis.

Quando a pessoa se sente profundamente escutada, normalmente ela se abre para me ouvir com curiosidade também, e então conseguimos criar um espaço de integração onde cabe tudo o que importa para nós dois. Muitas vezes, somente a partir desta compreensão mútua é que coisas novas que antes não tínhamos como imaginar podem surgir.

Não é mágica, mas às vezes parece mágica. E apesar de simples, não é tão fácil, pois requer disposição e dedicação para exercitar algo que geralmente não estamos muito acostumados a fazer: ir além dos julgamentos e construir uma conexão verdadeira a partir da escuta empática e da expressão autêntica, para que as discordâncias possam ser verdadeiramente escutadas e mudanças reais possam acontecer.

Por isso valorizo muito os espaços de prática: workshops, cursos, oficinas e grupos de Comunicação Não-Violenta (CNV), onde podemos exercitar esse novo paradigma de conexão e humanização radical, e buscarmos "ser a mudança que queremos ver no mundo", como propunha Gandhi.

Aproveite as festas de fim do ano para experimentar e nos conte aqui como foi! Se quiser apoio para praticar acesse: www.sinergiacomunicativa.com.br

Sobre a autora

Psicóloga, com graduação em artes plásticas e especialização em didática, Sandra Caselato é uma exploradora dos processos psicológicos e das relações humanas, com especial interesse na transformação de conflitos e no fortalecimento da cultura de paz. Atua com desenvolvimento humano há mais de 20 anos, aprofundando-se em práticas que favorecem o diálogo, a transformação pessoal e social por meio da conexão humana.

Sobre o blog

Como você se relaciona consigo mesma(o), com as pessoas a sua volta e com o mundo? Como você lida com os conflitos que se apresentam em sua vida e ao seu redor? Sandra Caselato traz reflexões sobre como viver uma vida mais conectada com os próprios valores, enxergar com empatia além das aparências e construir espaços seguros para conversas necessárias, criando o mundo em que queremos viver.

Sandra Caselato