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Educação para realização pessoal ou para submissão?

ECOA

10/12/2019 04h00

Algum tempo atrás estava arrumando meus cadernos e materiais escolares que minha mãe cuidadosamente guardou desde a pré-escola. Encontrei cadernos perfeitos, muito bem encapados por ela, com minha letra linda e super bem feita, desenhos caprichados, sem nenhuma dobrinha nos cantos das páginas, sem marca da pressão da caneta na página seguinte, pois usava um forro feito de cartolina entre uma folha e outra. Os cadernos eram a prova concreta da excelente aluna que eu era desde os meus primeiros anos escolares.

Enquanto folheava esses cadernos, uma sensação de angústia se apoderava de mim. Um certo enjoo, junto com tristeza, desânimo, cansaço, falta de esperança. Não me lembro das matérias, nem de me interessar por elas, minha lembrança é de obediência ao que me era pedido e total submissão ao sistema. Uma sensação de perda de tempo, tantos anos da minha vida fazendo coisas pelas quais não tinha o menor interesse e pelas quais era recompensada com excelentes notas, com a admiração e o incentivo dos professores e dos meus pais – as figuras de autoridade em minha vida. 

Então encontrei algumas folhas de rascunho meio amassadas e rabiscadas, com anotações desordenadas espalhadas pela página e alguns rascunhos de desenhos. Era uma peça de teatro que eu e algumas amigas tínhamos criado e encenado entre nós mesmas! Me enchi de alegria, vitalidade, entusiasmo, lembranças felizes ao encontrar algo que fazia sentido para mim! Eram apenas algumas poucas folhas valiosas de papel amassado, cheias de significado e boas memórias, em meio a caixas e mais caixas de cadernos perfeitos e sem sentido.

Me dei conta do quão opressivo tinha sido meu processo escolar e me perguntei qual era minha motivação em ter sido tão boa aluna se tudo era tão desinteressante para mim. Percebi que o que eu buscava era a aprovação e a aceitação dos meus pais e dos professores, as figuras de autoridade em minha vida. Fiquei muito triste em constatar isso e imagino que meus pais (e também professores) teriam preferido que minha motivação para ser boa aluna tivesse partido de um interesse genuíno pelos estudos, que me traria aprendizados verdadeiros e significativos, e uma vida mais feliz.

Me conectando agora comigo mesma, eu me dou conta que gostaria de ter conseguido não me importar tanto com a aprovação dos outros e ter feito mais bagunça, mais amizades e mais teatros durante minha infância. Provavelmente não seria tão boa aluna, mas teria sido uma criança mais alegre. 

Espero que um dia nosso sistema escolar e a educação que damos às crianças em nossa sociedade em geral se volte mais para o interior de cada uma delas. Que valorize mais a realização pessoal do que a submissão e a obediência. Para que cada pessoa aprenda desde cedo a se conectar mais profundamente consigo mesma, descubra seus interesses verdadeiros e aquilo que precisa para ter sentido e felicidade em sua vida, desenvolvendo plenamente seus potenciais. Que cada criança possa ter a liberdade de fazer coisas para alegrar seu coração e não apenas para ter aceitação. Que não precise escolher entre aprovação ou realização pessoal. 

Acredito que assim teremos adultos mais realizados e felizes, com mais capacidade e criatividade para enfrentar os problemas atuais da nossa sociedade, e construir um mundo melhor para todos.  

Sobre a autora

Psicóloga, com graduação em artes plásticas e especialização em didática, Sandra Caselato é uma exploradora dos processos psicológicos e das relações humanas, com especial interesse na transformação de conflitos e no fortalecimento da cultura de paz. Atua com desenvolvimento humano há mais de 20 anos, aprofundando-se em práticas que favorecem o diálogo, a transformação pessoal e social por meio da conexão humana.

Sobre o blog

Como você se relaciona consigo mesma(o), com as pessoas a sua volta e com o mundo? Como você lida com os conflitos que se apresentam em sua vida e ao seu redor? Sandra Caselato traz reflexões sobre como viver uma vida mais conectada com os próprios valores, enxergar com empatia além das aparências e construir espaços seguros para conversas necessárias, criando o mundo em que queremos viver.

Sandra Caselato