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Sandra Caselato

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Libertando-se de prisões ideológicas

ECOA

05/11/2019 11h13

Fui para Palestina e Israel pela primeira vez em 2010. Nesse ano meu esposo foi fazer lá a pesquisa de campo do seu primeiro mestrado e eu o acompanhei. 

Nos anos seguintes nos envolvemos em várias iniciativas que buscam apoiar a transformação da situação difícil em que vivem as pessoas naquela região. 

Dentre as principais, fundamos uma ONG que funciona com base no voluntariado e leva estudantes brasileiros de graduação e pós-graduação para fazer estágio em organizações de direitos humanos na região durante 5 semanas. 

Também começamos a participar de uma iniciativa que ocorre todo ano desde 2011 nos territórios palestinos ocupados, que reúne por 9 dias mais de 100 participantes palestinos, judeus e internacionais, numa imersão em Comunicação Não-Violenta (CNV). 

Este retiro é organizado em áreas onde é permitida a entrada tanto de palestinos quanto de judeus israelenses. Devido à situação política e de ocupação militar da Palestina por parte de Israel, as pessoas não têm liberdade de acesso e movimento em alguns lugares dependendo de sua nacionalidade e religião.

Tenho visto no decorrer dos anos coisas incríveis acontecerem nestes encontros. Testemunhei experiências e transformações pessoais e coletivas muito significativas e inspiradoras. Uma comunidade tem se formado em torno do estudo e da prática da Comunicação Não-Violenta, a partir da qual têm surgido parcerias e projetos conjuntos, novas amizades e até alguns casamentos entre palestinos e judeus israelenses! 

Curiosamente boa parte dos participantes estrangeiros são alemães que se interessam pelo que ocorre na região e querem apoiar de alguma forma. Coletivamente muitos alemães sentem um grande pesar por sua história durante a Segunda Guerra Mundial, quando o regime nazista matou aproximadamente 9 milhões de pessoas em campos de extermínio, dos quais 6 milhões eram judeus. 

Durante os retiros procuramos criar um espaço de acolhimento, segurança e confiança onde as pessoas conseguem se conectar consigo mesmas e umas com as outras da maneira mais profunda e verdadeira. Este ambiente torna possíveis diálogos e mudanças antes inimagináveis. E ocorrem transformações que nossa consciência talvez não consiga acessar completamente e que reverberam no futuro em desdobramentos diversos.

 Certa manhã, num desses retiros, quando todos se reúnem diariamente num grande círculo, um rapaz israelense judeu contou que teve um sonho. Ele era um jovem e estava andando numa plantação, durante a Segunda Guerra Mundial, quando de repente surgiu um soldado nazista apontando uma arma para ele e atirou. Este foi seu último momento de vida. No sonho, após morrer, ele se viu olhando nos olhos do soldado e percebeu que ele era também muito jovem. Viu em seus olhos que ele estava confuso, perdido, se sentindo muito mal pelo que tinha acabado de fazer. Viu que na verdade ele não era uma má pessoa, mas estava imerso numa sociedade com uma poderosa ideologia nacionalista e racista que o tomava por completo, e onde infortunadamente se encontrava nesta posição de soldado. Então ouviu uma voz, talvez sua própria voz interna que descobria algo novo e importante, dizendo que estava tudo bem e que é possível enxergar além da culpa. Foi uma expansão de consciência e entendimento. 

Enxergar a humanidade desta pessoa que estava na função de soldado no exército nazista foi para ele algo muito impactante, assustador e desnorteante. Como poderia aquele nazista, que ele aprendeu desde criança a ver como sendo um monstro, o "mal absoluto", agora ser visto em um de seus aspectos humanos? Como era possível estar sentindo sequer um fragmento de compreensão, empatia e até compaixão por aquela pessoa? Era muito estranho estar vivenciando uma experiência de compreensão por alguém e, ao mesmo tempo, considerar imperdoável e inaceitável sua visão de mundo e conduta.

Este fenômeno não é tão raro neste campo em que venho atuando. Aquilo que muitas vezes consideramos impossível e vivenciamos como uma polaridade irreconciliável em nossas culturas e senso comum, na prática da Comunicação Não-Violenta se torna possível: compreender profundamente e ao mesmo tempo discordar completamente. Faz parte da prática vivenciar este princípio que também aparece nos fundamentos do caminho da não-violência de Gandhi: enxergar o aspecto sagrado da humanidade de qualquer pessoa como algo separado de suas crenças e atos. Assim, podemos tratar a pessoa com respeito e ao mesmo tempo fazer oposição e resistir a sua forma de ver o mundo e interromper suas ações. 

Talvez este sonho tenha ajudado o rapaz a trazer um olhar crítico para si mesmo: o quanto eu posso estar sendo "o monstro" para outras pessoas? O quanto eu causo sofrimento ao outro muitas vezes sem saber, acreditando que estou seguindo o que é moral, correto, sagrado, belo? E o quanto será que era assim com os próprios nazistas? 

 Quanto perigo existe em embarcarmos sem querer em prisões ideológicas, crenças e ações que nos cegam e não nos permitem enxergar e respeitar a dignidade, a liberdade e a vida do outro.

 O impacto das reflexões que sucederam ao sonho e o espaço propício para entrar nas conversas difíceis que emergiram a partir dessa experiência levaram o rapaz a uma decisão importante. Alguns dias depois, durante o grande círculo, ele contou que havia decidido se tornar um "objetor de consciência" e iria escrever uma carta ao exército israelense dizendo que não iria mais servir. 

 Em Israel, o serviço militar é obrigatório tanto para homens (3 anos) quanto para mulheres (2 anos). Após este período, os homens ainda servem o exército durante um mês, todo ano, até os 40 anos de idade. O serviço militar é muito valorizado e, por meio da educação e da socialização, se torna parte da identidade pessoal e nacional, uma forma cultural e estrutural de pertencimento. Além da aceitação social, há muitas oportunidades de emprego que exigem o serviço militar em ordem, então as recusas em servir o exército são raras. 

Provavelmente ele iria preso por um período depois de mandar a carta. Sabia que seu pai e seu irmão receberiam essa sua escolha como um duro golpe, e seus amigos e familiares não iriam compreender. Mas estava decidido a pagar o preço que a sociedade lhe impusesse, para não mais participar de uma estrutura que oprime outras pessoas.

Sobre a autora

Psicóloga, com graduação em artes plásticas e especialização em didática, Sandra Caselato é uma exploradora dos processos psicológicos e das relações humanas, com especial interesse na transformação de conflitos e no fortalecimento da cultura de paz. Atua com desenvolvimento humano há mais de 20 anos, aprofundando-se em práticas que favorecem o diálogo, a transformação pessoal e social por meio da conexão humana.

Sobre o blog

Como você se relaciona consigo mesma(o), com as pessoas a sua volta e com o mundo? Como você lida com os conflitos que se apresentam em sua vida e ao seu redor? Sandra Caselato traz reflexões sobre como viver uma vida mais conectada com os próprios valores, enxergar com empatia além das aparências e construir espaços seguros para conversas necessárias, criando o mundo em que queremos viver.

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