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Sandra Caselato

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Você tem medo de falar em público?

ECOA

16/10/2019 09h35

Eu tenho. Desde criança.

Numa de minhas primeiras memórias de infância eu estou sentada em círculo com outras crianças de 3 a 4 anos e duas professoras. Neste dia, minha irmã de 2 anos foi junto comigo para conhecer a escola. Estávamos nesta roda quando em algum momento minha irmã gritou, não sei porque. Uma das professoras a pegou no colo e a levou para outra sala. Meu coração disparou, fiquei aflita, preocupada, sentindo meu estômago virar e meus braços formigarem. Ao mesmo tempo tive uma desconfortável sensação de auto consciência e senti muito medo, pavor mesmo. Queria correr atrás da minha irmãzinha – onde estavam levando ela?! Mas não conseguia me mover. Estava paralisada. No desespero pensei: "Já sei! Vou gritar também, assim eles vão me levar para o mesmo lugar onde ela está!" Cheguei a abrir a boca mas minha voz não saía. Medo. Desespero. Parece que toda energia tinha se esvaído do meu corpo e eu estava ali sem forças, petrificada, imóvel, sem conseguir me mexer. Acho que ninguém na roda percebeu o que acontecia comigo. Tudo continuava normalmente, a professora e as outras crianças conversando. Senti vergonha, sensação de inadequação e inferioridade. 

Ao lembrar agora desta cena meu corpo revive essas sensações. O desespero de não ser vista e de não conseguir expressar algo tão importante para mim, pelo medo de desafiar a ordem das coisas e ser mal recebida.

Esta falta de voz me acompanhou durante toda infância, adolescência e parte da adultidade. Um grupo de 4 pessoas para mim já era uma multidão e eu não conseguia me expressar muito bem. Imagina apresentar um trabalho para toda a sala de aula. Pavor. Cheguei a passar mal várias vezes e a faltar em aulas nos dias de apresentação de trabalhos, tanto no ensino médio quanto na faculdade.

E eu não sou a única a passar por isso. O medo de falar em público aflige muita gente. Ele é maior do que o medo de morrer, segundo uma pesquisa de 2015 publicada no jornal britânico Sunday Times. Foram ouvidas 3 mil pessoas no Reino Unido e 41% dos entrevistados disseram que seu maior medo era "falar em público", ficando à frente do temor de conviver com problemas financeiros (22%) e medo de doenças e da morte (19%).

Entendo que o medo de falar em público esteja associado ao medo de sermos avaliados, julgados, desvalorizados, excluídos. Todos queremos receber apreciação, aceitação e nos sentirmos pertencentes. 

Este medo é ainda mais legitimado quando o que eu imagino que os outros irão pensar de mim faz coro com minhas próprias vozes internas dizendo que não sou boa o suficiente, que o que os outros sabem vale mais do que o que eu sei, que os outros são mais importantes que eu, ou que minha experiência não é válida. Pensando assim, me vejo incapaz de engajar em diálogo e compor sentido com os outros e seus saberes, ficando paralisada e sem voz.

É bem possível que eu tenha absorvido esse tipo de pensamento crescendo num sistema (escolar, familiar e a sociedade em geral) que continuamente me diz que o saber está fora de mim. Essas histórias tomam dimensão de crenças limitantes profundas, com vozes internas que dificilmente consigo acessar conscientemente mas que vivem em mim, regendo minha experiência: "os outros importam mais do que eu"; "os outros sabem mais do que eu (inclusive sobre mim mesma)". Essa crença fica ainda mais reforçada quando se mistura com estruturas hierárquicas de poder, como no caso da professora e os outros adultos, quando eu era criança, e pessoas em posição de autoridade em geral, que possuem títulos ou representam instituições que se dizem detentoras do conhecimento. 

 Essas crenças limitantes vão se tornando cada vez mais poderosas à medida que eu me desconecto de mim mesma, da minha experiência, intuição e verdade internas, me submetendo unicamente à autoridade externa, ao poder e ao saber que está fora de mim. 

Superando o medo

Hoje eu facilito processos em grupos, dou aulas e palestras, às vezes para mais de 500 pessoas. Foi um caminho gradual de transformação interna, auto aceitação e experimentação que me possibilitou fazer o que faço hoje.

Eu trabalho principalmente com uma abordagem chamada Comunicação Não-Violenta (CNV), desenvolvida pelo psicólogo norte-americano Marshall Rosenberg, que teve grande influência neste meu processo. 

A CNV tem me apoiado e a inúmeras pessoas ao redor do mundo, a nos reconectarmos com nossa própria humanidade e verdade internas, acolhendo a nós mesmos, nossos sentimentos e necessidades. Também nos ajuda a ver a humanidade das outras pessoas e a desconstruir as hierarquias de poder e dominação que estão na sociedade e internalizados em nossas próprias maneiras de pensar. Este trabalho de desconstrução interna facilita enxergarmos os outros com mais horizontalidade e falar de ser humano para ser humano, independente de hierarquias. 

Na prática da CNV, Rosenberg trouxe uma forma pragmática de desconstrução dessas crenças sobre seres humanos importarem mais ou menos do que outros. Segundo ele, essa forma de pensar está impregnada em nossas estruturas sociais e culturais há mais de 8 mil anos. Não é à toa que permeiam a experiência individual de tanta gente, resultando inclusive no medo de falar em público. 

E como é que eu tenho superado o medo de falar em público? Praticando empatia. Comigo mesma e com os outros, me reconectando com o que é importante para mim e também para as outras pessoas. Com este foco na empatia e na conexão que a CNV propõe, lentamente vou desierarquizando as relações e reumanizando a mim mesma e aos outros.

Se eu acredito que as outras pessoas são mais importantes ou sabem mais do que eu, então eu não tenho nada a dizer ou com que contribuir. Porém, se passo a enxergar os outros apenas como pessoas que, assim como eu, têm sentimentos, necessidades e histórias pessoais, então se abre dentro de mim um espaço para uma conexão mais profunda, de ser humano a ser humano, onde pode existir o respeito, a troca e a contribuição mútua. 

Quando deixo de considerar uns mais importantes do que outros, começo a valorizar as particularidades e saberes individuais – tanto dos outros quanto meus próprios. Assim, me sinto mais segura e presente, mais conectada comigo mesma e com as pessoas à minha volta, confiante de que minha contribuição é valiosa, assim como a de todas as pessoas. Desta forma, o medo de falar em público se vai. 

Sobre a autora

Psicóloga, com graduação em artes plásticas e especialização em didática, Sandra Caselato é uma exploradora dos processos psicológicos e das relações humanas, com especial interesse na transformação de conflitos e no fortalecimento da cultura de paz. Atua com desenvolvimento humano há mais de 20 anos, aprofundando-se em práticas que favorecem o diálogo, a transformação pessoal e social por meio da conexão humana.

Sobre o blog

Como você se relaciona consigo mesma(o), com as pessoas a sua volta e com o mundo? Como você lida com os conflitos que se apresentam em sua vida e ao seu redor? Sandra Caselato traz reflexões sobre como viver uma vida mais conectada com os próprios valores, enxergar com empatia além das aparências e construir espaços seguros para conversas necessárias, criando o mundo em que queremos viver.

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